Síndrome do “capitão-do-mato” – A atual insensibilidade da população brasileira

By | 2 de abril de 2014

O capitão-do-mato é uma referência histórica de fácil reconhecimento. No tempo da escravidão, este “freelancer” se encarregava de localizar, capturar e devolver o escravo fujão ao seu legítimo proprietário. Realizada a reposição da “peça”, recebia sua paga e retomava sua busca por uma nova oportunidade de trabalho.

Este hábil zelador costumava ser um negro liberto, ou um mulato ou, em raríssimos casos, um branco pobre, filho de imigrantes.

Na escala social da época, as posições são claras e bastante distintas: o senhor-do-engenho ou senhor-da-terra transitava na elite da população brasileira. Dispunha do capital e ponderava nas decisões políticas regionais. Acreditava na escravidão como uma disposição divina. Abaixo da elite, estavam os pobres desprovidos de posses, ocupando posições subalternas como: prestamistas, quitandeiros, prostitutas, alfaiates e, pasmem, médicos e advogados. O capitão-do-mato figurava no grupo de pessoas sem posses e rendas, mas sempre próximo a elite, assim como os médicos e advogados. Os escravos estão à margem de qualquer grupo social. Ou seja, são comparados a fauna e a flora.

A captura de escravos deve considerar alguns requisitos fundamentais, muito deles advindos do pensamento social elitista da época. Por exemplo, deve-se crer no princípio da escravidão como um bem legítimo; na crença de que negros não são pessoas, mas propriedades; e na existência do negro como justificativa para o trabalho braçal e tráfico humano.

O capitão-do-mato, ontem escravo, deve trabalhar hoje para garantir a escravidão. Acredita que sua visibilidade social é idêntica do escravocrata, quando, na verdade, o escravocrata o vê como escravo. Alimenta a crença de um dia poder oprimir, quando seu futuro não o separa da condição de oprimido. Sente-livre porque entra e sai das tabernas e dos prostíbulos, mas não usufrui de nenhum bem que a liberdade oferece porque seus recursos são parcos. É o ser livre mais escravizado que a sociedade conheceu.

A lógica formulada pelo próprio capitão-do-mato para justificar sua existência se reflete na sociedade brasileira contemporânea.

Vemos com relativa frequência pessoas que advém das camadas mais humildades da sociedade, criticando o comportamento dos seus pares originais. Ontem eram pobres. Ascenderam e são ferrenhos críticos insensíveis das mesmas pessoas que mantiveram convivência por anos.

Quando observamos a elite brasileira proferindo insensibilidades contra programas governamentais de distribuição de renda, erradicação da miséria, reforma agrária e risco habitacional, sabemos que tal pensamento é “parte do jogo”. Ninguém acredita (ou deve acreditar) que o capital trabalhará a favor da distribuição, quando a lógica da acumulação é justificada através de milhares de reflexões sobre o Capitalismo e a Modernidade.

No momento em que representantes legítimos da população conhecidos como “Classe C ou Nova Classe Média” proferem insensibilidades contra seus antigos pares, acreditando que sua condição se equipara a elite brasileira, não há condição de razoabilidade que explique tamanha indelicadeza. Ou seja, o acesso a alguns ínfimos bens de consumo já é condição indelével para o exercício das críticas.

Alguns integrantes da Classe C são os novos capitães-do-mato. Estão inebriados pela efêmera condição de consumir, algo privado de suas vidas por anos, substituindo sensibilidade, discernimento e posicionamento político por ataques aos seus pares, preconceito e ideologias ralas.

Com a abolição da escravidão brasileira, a função de capitão-do-mato se exauriu. Os elementos da sociedade contemporânea que insistirem nesta insensibilidade insana terão o mesmo destino.