Por que deixei o Ateísmo: Fé e Judaísmo

By | 18 de abril de 2017

O caminho que nos leva ou nos afasta da divindade costuma ser intrincado. Raramente nos perguntamos por que chegamos ao teísmo (crença na divindade). E quando dos perguntamos, a resposta é sempre a mesma: “sigo apenas a crença ou religião dos meus pais”. Caso você nascesse no Irã ou Iraque, você seguiria o Islã. Se você nascesse em Israel, você seguiria o Judaísmo. E se você nascesse em qualquer outra parte do mundo com pais ateus, você se tornaria um ateu?

Nossas convicções religiosas estão intimamente ligadas aos fatores familiares, culturais, sociais e políticos. A crença ou descrença numa divindade é algo de foro íntimo. O ingresso numa religião se faz presente cedo ou tarde em nossas vidas.

Afirmo que comigo não foi diferente. Fui iniciado por familiares numa religião na qual não escolhi. Nunca desenvolvi crença na divindade a despeito das insistentes tentativas forçadas de me tornar um religioso. O resultado nem sequer foi trágico. Apenas melancólico. Nada daquilo fazia sentido para mim.

Desde a tenra idade até meus 16 anos, eu cumpri estritamente minhas “obrigações religiosas”. No primeiro ano do Ensino Médio, tive minhas primeiras aulas de uma disciplina, cujo valor foi indelével em minha formação: Filosofia. Tanto que jamais deixei de lecionar, diretamente ou indiretamente, a Filosofia em minhas aulas sobre Educação e Educação Física. Em 1996, o docente trouxe a aula o tema “Homem versus Razão”. Fui apresentado a Platão, Sócrates, Aristóteles, Locke, Nietzsche, Agostinho e tantos outros ícones do Pensamento Universal. Discutimos o Existencialismo a luz da divindade.

A aula foi tão empolgante que fui admoestado três vezes para que permitisse a participação dos colegas nas ponderações. Por fim, cansado do meu “furor discente”, o professor decidiu lecionar só para mim.

A aula terminou e tinha certeza sobre o que acabara de me tornar:  ateu.

Minha fé era inexistente. Sim! Sempre quis crer. Sempre desejei entender o que significava a divindade. Só consegui naquele momento compreender o porquê do homem ter criado D´us a sua imagem e semelhança…

Obviamente que a minha definição sobre a divindade foi mudada. Contudo antes de explicar como ocorreu esta transição, farei um brevíssimo relato sobre minhas origens: Diáspora, Judaísmo Sefardita, sobrenomes, como chegamos na Espanha, como chegamos ao Tirol, como chegamos ao Brasil e quem somos hoje.

Breve Histórico

O relato, apesar de breve, será conciso. Farei pequenos saltos na história da Europa, Oriente Médio e do Povo Judeu.

Meu sobrenome é Merlo. Sejamos francos: não vemos pessoas com este sobrenome todos os dias. A história deste sobrenome remonta a Espanha no Século XV. “Merlo” é uma corruptela de melro, um pássaro negro comum em plantações de grãos, especialmente em milharais.

Há outras inúmeras corruptelas de Melro em vários países: Merlo (Itália, Argentina e Brasil), Merlim (Inglaterra), Blackbird (Reino Unido e suas ex-colônias), Merlot e Merloaux (França), Mello (Portugal, Espanha e suas ex-colônias), Melo (Portugal, Espanha e suas ex-colônias) e Amsel (Alemanha).

Na Espanha e Portugal, a Nobreza e a Igreja Católica costumavam rebatizar membros de famílias judias com sobrenomes pejorativos: tipos de madeiras (Pereira, Carvalho, Pinheiro), ferramentas de trabalho (Machado) e nome de animais (Coelho, Pinto e Melro) a fim de que se tornassem cristãos à força. Ou seja, surgem os primeiros Cristãos Novos que, mais tarde, vieram habitar o Brasil.

O recebimento do sobrenome a minha família ocorreu quando chegamos na Espanha a partir da Segunda Diáspora, ocorrida em 70 D.C. Devido a tomada de Jerusalém por legiões romanas, bem como o crescimento exponencial do Cristianismo, os judeus foram obrigados a imigrarem para regiões distantes como a Península Ibérica, Ásia Menor e Norte da África. Estes judeus são conhecidos como Sefarditas.

Em 1492, os Reis de Espanha, Fernando e Isabel, ganharam a guerra contra os Mouros e expulsaram todos os judeus, inclusive vários Cristãos Novos. Alguns se erradicaram em Portugal, Alemanha, Áustria, Itália e até no Leste Europeu. Há quem diga que este momento histórico deva ser chamado de Diáspora da Diáspora.

Expulsão de Judeus da Espanha em 1492

Expulsão de Judeus da Espanha em 1492

A família Merlo se assenta numa região chamada Tirol, atualmente dividida por dois países: Áustria e Itália. Tirol é uma região fria com duas línguas predominantes: alemão e italiano. Nunca vi meu avô falando estas línguas, mas ele dizia compreender alemão, polonês e italiano. Minha avó falava italiano. Ambos já eram brasileiros, mas tinham sotaque estrangeiro.

Mapa de Tirol: Áustria e Itália

Mapa de Tirol: Áustria e Itália

Já no Século XX, aproveitando a abertura das fronteiras brasileiras, minha família desembarca no Rio de Janeiro saída do Tirol em 1905, trazendo consigo a esperança num mundo novo e hábitos católicos. Afinal a fé judaica foi desconfigurada ao longo de vários séculos.

Chegada da Família Merlo. Foto: Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro. 1905.

Chegada da Família Merlo. Foto: Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro. 1905.

Sou a terceira geração de Merlo´s nascidos no Brasil. Uma parte da família se fixou no Espírito Santo e a outra no interior do Rio de Janeiro. Chegamos a capital fluminense na década de 1970.

A lógica do imigrante ou emigrante é simples: vencer. Não por acaso todos os quatro filhos do meu avô Merlo são pessoas que possuem Nível Superior.

Ainda que a citação seja sucinta e não menos importante, minha família materna é pernambucana, inclusive minha mãe. Também são quatro filhos de retirantes que concluíram seus Níveis Superiores nos anos 1980 e 1990.

Sendo assim percebo que cada membro familiar, Merlo ou não, me ofereceu o que eles tinham de melhor.

Resumindo: Os maiores valores familiares que recebi consiste no apreço pela História, Cultura, Educação e Trabalho.

A Religião e a Prática

Em meio a formação geral, recebo as iniciações para que me torne Católico. Nada fazia sentido neste campo religioso: ser obrigado a me reportar a um líder espiritual absoluto, tão homem quanto eu; passados dois mil anos, um representante de D´us na terra, se autointitulando Seu filho, enviado em mais um momento político conturbado da Judeia e Jerusalém. Este homem é assassinado numa cruz em meio ao Pessach e ressuscita após três dias.

Guardo profundo respeito por aqueles que creem nestes dogmas. Contudo para mim nunca fez sentido. Aliás não faz nenhum sentido até os dias atuais.


Como a Educação tem obrigação de ressignificar conhecimentos, sempre mantive minhas leituras sobre Existencialismo e ponderei sobre os eventos da contemporaneidade. Conforme avançava nestes campos, percebi que a Filosofia e os Grandes Pensadores colocaram seus pensamentos dentro de um polígono multidimensional. Eis que de repente, aprofundava-me nas reflexões que me deparava com a própria limitação do pensamento humano, cujas explicações para demais acontecimentos já poderiam ser atribuídos a construções lógicas (ainda) inimagináveis.

A limitação do pensamento, inclusive refutando na maioria das vezes o Cartesianismo e o Pragmatismo, permitiu que eu tivesse crença no imponderável, indelével, impossível, intangível, imensurável, improvável, intransponível e incomensurável.

Na imensa humildade do usufruto do direito que me assistia, usei a prerrogativa da dúvida e comecei verdadeiramente a crer em D´us.

Não foi um processo imediato. Demorei anos para construir a aceitação. Dogmas não precisam ser fundamentados, assim como a descrença na divindade. Precisava refutar a hipótese de que a dúvida é ilegítima para estes casos. E não consegui.

O processo foi longo e já seria suficiente para aceitar minha nova condição. Contudo achava que faltava estudos. Minha formação familiar, a bem da verdade, possui  conceitos primários de Educação Judaica, até porque é a base do Catolicismo: valor a sua própria educação, a valor a educação dos seus pares e valor a educação advinda de D´us. Apesar do ateísmo, sempre me considerei um estudioso antropológico das religiões. E por isso a retomada das minhas origens judaicas neste momento foi desejado, apropriado e importante.

O Judaísmo é uma religião de prática e conduta. Seus seguidores precisam respeitar seus dogmas, valores, normas, procedimentos e serem reconhecidos como membros de sua comunidade. A história prova a necessidade dos comportamentos discretos entre os judeus e a manutenção dos valores religiosos datados a milênios. Afinal são sucessivas perseguições, Diáspora, 2 bilhões de cristãos, 1.2 bilhões de islâmicos e 15 milhões de judeus…

Uma das mensagens mais importantes do Judaísmo é que a chegada do Messias é importante. Contudo o fundamental é caminhar na esperança de sua chegada. Ou seja, falo da construção do Messias dentro de cada um de nós.

Acredito que o Judaísmo será meu caminho para todo sempre. Manterei meus valores oferecidos por minha família, pois certamente eles se alinham e se alinharão com a bondade e a esperança, presentes em todos as religiões e homens de boa fé. Nascemos escravos e hoje somos livres.

Referências

AGUILO, Pere Bonnin. Sangre Judía. 1ª Edição. Flor de Viento Ediciones. Barcelona, 1998.

Ancestry – Sítio Internacional Para Descoberta De Ancestralidade. Disponível em: <https://www.ancestry.com>.

BIRNBAUM, Eliahu (Rb). FREUND, Michael. Você Tem Raízes Judaicas? Guia Prático Para Descobrir Suas Raízes Judaicas. 2015. Disponível em: <http://bit.ly/2pxHdAZ>.

Descubra Suas Raízes – Sítio Internacional Para Descoberta De Ancestralidade. Disponível em: <http://pt.nameyourroots.com>.

Forbears – Sítio Internacional Para Descoberta De Ancestralidade. Disponível em: <http://forebears.io>.

Retorno Serfardi – Sítio Internacional Para Descoberta de Descendência Judaica Sefardi. Disponível em: <http://www.retornosefardi.com>.

STEIN, Harry. Database of Sephardim.com. Disponível em: <http://bit.ly/2oqegCr>.

Sem Autor. Sobrenomes De Judeus Expulsos Da Espanha Em 1492 – Veja se o seu está na lista. Publicado em 23/Março/2014. Disponível em: <http://bit.ly/2oqbg9b>.

Wikipédia. Diáspora Judaica. Disponível em: <http://bit.ly/2oSYfZu>.

Wikipédia. Tirol. Disponível em: <http://bit.ly/2o0TX39>.