Porque a educação que você recebeu não te serve mais

By | 24 de novembro de 2014


Por Thiago Merlo

Talvez você não saiba, mas o sistema educacional na qual todos nós fomos inseridos têm suas bases datadas do século V, período em que a Igreja assume parte das funções de Estado – entre elas a educação – decorrente da Queda do Império Romano.

Como o acesso à educação deixou a exclusividade da nobreza, a burguesia exigia formação intelectual ampla e qualificada para seus filhos. Ao longo dos séculos, a Igreja sistematiza a educação, dividindo o conhecimento em grandes áreas como línguas, matemática, geometria, artes, história, ciências naturais, astrologia e até ciências militares. Os livros, bem como os métodos de escrita e impressão, são geridos por grupos religiosos e disponibilizados ao público com parcimônia. Afinal conhecimento é poder.

A população cresceu por cinco séculos e com ela a demanda pela universalização do conhecimento. Surgem instituições exclusivas para educação, munidas de profissionais inspirados na figura do pedagogo. São abertas salas de aulas e as classes seriadas de ensino. A formação educacional foi dividida em básica, média e superior.

Estamos falando de um sistema educacional vitorioso. São cinco séculos a educar as elites, universalizando informações outrora disponíveis a pequenos grupos tomadores de decisão.

Podemos afirmar que o sistema de educação universal atendeu seus propósitos, observando dois parâmetros básicos. O primeiro é a competência tática e estratégica em gerir um modelo de ensino, observando e atualizando os anseios da população. O segundo refere-se a gestão do conhecimento, definindo quem teria acesso as informações, limitando a quantidade e a qualidade das decisões. A opção de tornar finito o acesso ao conhecimento sempre foi moralmente questionável, porém bastante útil. O maior de todos os movimentos a afrontar o “monopólio do conhecimento” foi o Iluminismo.

Os dois parâmetros básicos se mantiveram estáveis até meados do século XX até que uma nova aurora resplandeceu no horizonte (que piegas…).

Os avanços nos meios de comunicação alteraram o modo como a informação e o conhecimento chegavam as pessoas. As correspondências de longa distância, eletricidade, telégrafo, telefone, rádio e TV trouxeram mudanças de paradigma. O aperfeiçoamento dos meios de comunicação como transmissões de TV via satélite, telefones celulares e principalmente a internet são os ratificadores da mudança pela qual a informação e o conhecimento se propagam pelo mundo.

O sistema de educação universal não é mais gerido pela Igreja. Discussões de várias naturezas foram travadas em meio a uma nova sociedade pós-Revolução Industrial. A academia – especialmente as universidades – apresentaram estudos e pesquisas sobre diversos campos do saber, tornando a ciência mais madura e menos questionável. A educação foi posta em voga por pensadores como Jean Piaget, Henri Wallon, Lev Vygotsky, Célestin Freinet e Reuven Feuerstein. No Brasil surgem grandes nomes como Paulo Freire, Moacir Gadotti, Anísio Teixeira e Rubens Alves.

Então por que a educação que recebemos não nos serve mais?

Você e a maioria das pessoas foram educadas formalmente durante a segunda metade do século XX e/ou no século XXI. Somos “filhos da revolução dos meios de comunicação” e por isso toda nossa educação, em tese, já estaria adaptada ao universo digital. Se você pensou assim, lamento informar: você errou.

Os cinco séculos de educação formal, repito, são vitoriosos, mas seu ciclo de vida está chegando ao fim. As escolas ainda preconizam um modelo que não mais atendem os anseios da sociedade contemporânea. Os alunos são postos em fileiras, de fronte aos “detedores do saber” dizendo-lhes o que é certo e errado, ditando normas de conduta e proferindo falácias de um mundo diferente da realidade.

O compositor Renato Russo, auspicioso na sua forma de descrever o mundo, afirma: “Quando nascemos somos programados a receber o que vocês nos empurraram com os enlatados dos USA de 9h (A.M.) às 6h (P.M)”. Ainda na juventude, um dos seus maiores dramas era não ser compreendido por um sistema que não educa, mas impõe padrões e persegue os que não se adaptam. Os músicos Lobão e os ingleses Tony Iommi e Eric Clapton também tiveram problemas na escola.

A escola não ensina, mas reproduz conhecimentos sistematicamente, desconectado da vida real.

Segundo Rubens Alves, a escola não deveria se preocupar com o conhecimento, pois os mesmos estão nos “livros e por ai”. O dever da escola contemporânea é educar o aluno a se educar. Não mais dizer o que deve ser estudado, mas permitir-lhes que busque o conhecimento no seu tempo, espaço e momento etário. A escola deve apenas direcionar e guiar através do caminho do conhecimento para que a tomada de decisão seja exclusivamente do aluno. Sem dúvida, os meios de comunicação como a internet devem ser observados como indeléveis veículos para que o conhecimento seja democratizado. E a escola é insipiente quando trata das tecnologias.

Esqueçam as classes seriadas! O mundo não diz qual é o seu nível. Ninguém sequer tem o direito sobre outro ser humano de dizer qual é o seu nível. Você se encaixa no mundo e faz dele um lugar melhor para viver. Se você adquire conhecimento de forma livre, por que a escola pode afirmar o que, como, onde e por que o conhecimento será oferecido ou aplicado?

E as avaliações, testes e provas? Um momento de terror “ofertado” desde a mais tenra idade até os últimos dias de estadia na educação formal. Nenhum professor pode dizer que o aluno realmente aprendeu, observando os tipos e critérios de avaliação, assim como o aluno não apresenta todo seu potencial por que chegou o dia e a hora. Aprender, ensinar e produzir conhecimento é um processo lento, longo e gradual. Não é a prova – ou algo que o valha – que ratificará ou acelerará o processo.

Você percebeu que a(s) escola(s) por onde passou não te prepararam para o mundo, mas para mudar de “série” ou “ano”. Ninguém te educou, mas te instruíram. Assim como fazem os instrutores dos Centros de Formação de Condutores – as antigas autoescolas: você fez as aulas práticas e pode até ter sido aprovado pelo DETRAN do seu estado, mas provavelmente não aprendeu a dirigir.

A escola deve te “por no mundo” vivendo, sentindo, agindo, atuando, sendo protagonista da sua própria vida. As instituições de ensino devem fomentar o interesse pelos grandes pensadores e referenciá-los entre os discentes para que seus nomes e idéias ecoem eternamente.

O sentido da educação é a progredir a espécie. Não se trata de funcionalismo barato, mas uma forma de garantir que nossa breve estadia nesse planeta faça algum sentido. A escola formal sempre pensou desta forma e precisa se renovar para continuar a existir.

Contudo nem tudo são trevas na educação. Alguns dos nossos irmãos além-mar e patrícios já modificaram seus modos de agir e pensar a educação. A Escola da Ponte, localizada no Porto em Portugal, aboliu as séries e restituiu a figura do pedagogo como facilitador do processo de ensino e aprendizagem. As turmas têm 5 ou 6 alunos com idades diferentes e aproximadas, ocupando o mesmo espaço físico. Os discentes são direcionados pelo caminho do conhecimento. Eles decidem como e quando trilhá-lo. Os resultados têm sido, no mínimo, satisfatórios, pois o objetivo da escola é formar pessoas para contribuírem com outras pessoas.

A educação recebida por todos nós teve serventia, mas só até a “página 12”. Tudo que nos fez seguir em frente foram nossas próprias decisões. Devemos compreender que nem todos são autônomos e emancipados por natureza, sendo para alguns a necessária intervenção institucional, popularmente conhecido como “empurrãozinho”. A escola contemporânea deve preparar o indivíduo para o mundo e não para a própria escola.