O que o fim do “Chaves” e “Secos & Molhados” tem em comum? Uma crítica a vaidade

By | 7 de setembro de 2015


Por Thiago Merlo

Um seriado de televisão, sucesso na América Latina, guarda particularidades com uma banda meteórica e icônica da música popular brasileira da década de 1970. As semelhanças, por mais intrigantes que possam parecer, não estão no ápice do sucesso. O fim das iniciativas demonstram as rugas e falhas estruturais que ocorreram durante diversos momentos dos processos criativos. E por isso discutiremos o quão execrável pode ser determinados comportamentos que culminaram no fim precoce das atrações brasileira e mexicana. (*)

O seriado “Chaves” (“El Chavo del 8” no México ou “Chispirito” nos países da América Latina) foi uma criação de Roberto Bolaños, artista, roteirista e escritor de grande renome no México. No início da década de 1970, Bolaños aproveitou personagens e esquetes criadas para um antigo programa de televisão no canal 2 e produziu um seriado atemporal repleto de valores universais. O elenco recebeu as sinopses e desenvolveu na TV as personagens por mais de 8 anos. O gestual e bordões das personagens foram atributos de competência dos artistas que apresentaram os meios necessários para construção dos processos de identificação do público com o seriado.

A iniciativa funcionou a todo vapor até 1980 quando Bolaños negou sistematicamente a exploração das personagens em shows solos e eventos paralelos, atualmente conhecidos com “spin off”. Pelo abandono coletivo de diversas personagens, o seriado “Chaves” chegou ao fim.

Na época em que “Chaves” explodia no México, surgia no Brasil – precisamente em São Paulo – os primeiros esboços do que seria o “Secos & Molhados”. João Ricardo concebia uma das maiores bandas de música popular brasileira de todos os tempos. João, português nato e poucos anos radicado no Brasil, criou a identidade musical, estética e cultural que escandalizou a população e a ditadura militar. Antes do sucesso, João Ricardo já havia cooptado seu amigo e vizinho Gerson Conrad e o ator e cantor Ney Matogrosso. Os membros entenderam a proposta e entraram no projeto de corpo e alma. Usaram figurinos escandalosos, maquiagens no rosto, gestuais sexualizados atípicos e muita vontade de fazer sucesso.

O segundo álbum, lançado 10 meses após o primeiro, superou mais de 1.000.000 de cópias vendidas e colocou Roberto Carlos em segundo plano no mercado fonográfico. Sem maiores explicações, o “Secos(…)” chegou ao fim. Conrad e Matogrosso demonstram insatisfação quanto a distribuição dos proventos e principalmente pela falta de controle dos processos criativos. Os demais integrantes desejavam que João Ricardo reconhecesse juridicamente, administrativamente e artisticamente que todos tinham valor idêntico dentro do grupo. João não aceitou e os outros integrantes debandaram. A formação de maior sucesso chegou ao fim.

E possível observarmos os motivos que levaram ao fim do seriado “Chaves” e do grupo “Secos & Molhados”. Teria sido apenas conflito de interesses? Falta de diálogo? Falta de distribuição dos recursos financeiros? O principal motivo vai muito além…

A vaidade dos seus idealizadores interromperam as iniciativas. Caso ouçam Roberto Bolaños e João Ricardo comentarem o fim dos grupos, é perceptível a mágoa pelos integrantes abarcados por desejarem um reconhecimento legítimo. Afinal entre a concepção e a vida mundana das personagens, há uma lacuna bastante relevante que, nem mesmo seu idealizador, poderia vislumbrar. A falta de humildade em reconhecer o talento alheio e a falta de grandeza de repartir o sucesso fizeram com todos esses grupos se findassem antes do tempo.

O ser humano não se apresenta ao mundo senão com a proposta de servir. Ser um servo ou servidor constitui traça indelével da raça humana e por isso faz-se mister que toda educação se paute no desenvolvimento dos nossos pares. Roberto Bolaños e João Ricardo não aprenderam a lição. Talvez aprendam nessa ou em outra vida.

* – Os fatos que levaram ao fim das iniciativas podem ser diferentes dos relatados, mas nada que altere a realidade. O cerne do artigo está para além de um relato histórico jornalístico.