Mestre Fadda - A História Perdida do Brazilian Jiu-Jitsu

Por Thiago Merlo

As controversas versões sobre a História do Jiu-Jitsu Brasileiro são frutos de interpretações factuais e temporais, não sendo possível traçar uma retilínea argumentação sobre quem são os verdadeiros e importantes personagens da arte suave tupiniquim. A tendência do versionamento da historia é sempre temerário.

Embora seja possível apontar os elementos técnicos e simbólicos condizentes com o inicio da pratica do Jiu-Jitsu no Brasil, outros ícones da História do BJJ são citados nominalmente, mas permanecem fora do contexto geral. O fenômeno da amnésia coletiva explica-se em parte: a história é contada sempre do ponto-de-vista dos vencedores.

O entendimento do BJJ inicia-se com a História do Judo. Jigoro Kano, fundador do Judo, criou sua técnica de aptidão física, saúde e bem-estar pautado nas artes marciais não institucionalizadas japonesas como o Karate-Do e Jiu-Jutsu. Em outras palavras, Kano criou um produto tipicamente oriental pensado para o mercado ocidental. O Grande Mestre apreciava ternos, língua inglesa e beisebol, consequências da sua vida abastarda de riqueza abundante. E nunca fez questão de esconder seu apreço pelo “American Way Of Life”.

A disseminação do Judo pelo Ocidente ocorreu nos primeiros anos do século XX através de duas formas: usando dispositivos oficiais, formalizando acordos culturais entre países e; enviando lutadores pelo mundo. A segunda forma era a mais rápida, eficaz e eficiente, porém era tratada com certo desprezo pelo Instituto Kodokan e o Ministério das Relações Exteriores do Japão.

Mitsuyo Maeda (ou sob a alcunha de “Conde Koma”) era um Engenheiro Agrônomo e lutador nato. Antes da sua chegada ao Brasil, Maeda já era altamente graduado pelo próprio Jigoro Kano (provavelmente Maeda era sexto grau). Já havia passado por diversos países europeus, latinos-americanos e cruzado metade dos Estados Unidos. Quando Maeda ingressa no Brasil, utiliza o mesmo expediente aplicado em todos os outros países: elabora anúncios nos jornais propondo desafios e localiza os maiores lutadores locais. Quando os combates aconteciam nos teatros ou mesmo na rua, lograva êxito em quase todas as oportunidades.

Em Belém do Pará, o lutador fixa residência, casa-se, adota uma filha e ensina Judo aos habitantes locais. Segundo os relatos históricos e comprovadamente atestados, os principais alunos de Maeda foram os membros da família Gracie, família Ferro e Luiz França. A família Ferro descontinuou o conhecimento de Maeda. Os três principais ícones dessa modalidade de Judo, agora chamada Jiu-Jitsu, foram Carlos Gracie, Gastão Gracie, Hélio Gracie e Luiz França.

O Judo foi criado sem quaisquer técnicas de solo, socos ou chutes. Kano entendeu que as técnicas de projeção eram suficientes para impor submissão. Após alguns anos de criação do Judo, foram inseridas técnicas de solo (nage waza) do Jiu-Jutsu, socos e chutes(atemi waza) do Karate-Do, técnicas de esquivas (tai sabaki) e técnicas de defesa pessoal. As novas técnicas implantadas anos depois da criação do Judo no Japão deveriam ser apenas complementares e, de repente, passaram a receber mais ênfase que as projeções. O Judo de 1900 até 1930 era voltado para as técnicas de solo. Após 1930, o Judo modifica suas regras de competição, voltando a privilegiar as projeções. Essas modificações nas regras foram mantidas até a contemporaneidade.

Em síntese, o Judo ensinado por Maeda era influenciado pelas técnicas de solo. Logo o que entendemos por BJJ histórico nada mais é que Judo ensinado nos primeiros anos do século XX.

Maeda nunca obteve autorização para ensino do Judo fora do Japão, mesmo sendo estimulado a apresentá-lo pelo mundo. Quando fixou residência em Belém, a solução para transferir seu conhecimento sem ferir qualquer norma de conduta foi modificar o nome de Judo para Jiu-Jitsu.

Segundo os Gracie, o Jiu-Jitsu, tal qual é conhecido pelo mundo, foi um aprimoramento proposital realizado por Hélio Gracie, trazendo maior eficiência na luta corporal. Embora a colaboração do grande mestre Helio Gracie seja inegável, o Jiu-Jitsu no Rio de Janeiro evoluía naturalmente, seja através do seu irmão Carlos, seja através de Luiz França e seu aluno Oswaldo Fadda no subúrbio carioca de Bento Ribeiro. Entre os anos de 1960 até 1980, Fadda já formava grandes nomes do Jiu-Jitsu internacional como o Professor Mestre Deoclécio e Mestre Wilson Matos.

Em tese, todo praticante de Jiu-Jitsu deve ser conduzido pela árvore genealógica até chegar ao Conde Koma, passando ou não pelos Gracie.

Mestre Fadda confessava aos alunos mais próximos que a história do BJJ estava sendo contada pela ótica dos detentores do capital. Sua condição de suburbano, dizia Fadda, não lhe favorecia nas decisões tomadas na grande cúpula administrativa do Jiu-Jitsu Brasileiro.

É possível afirmar que a cidade do Rio de Janeiro possui quase a metade dos seus praticantes de Jiu-Jitsu com alguma ligação “genealógica” com Mestre Fadda.

O legado de Fadda está além do próprio Jiu-Jitsu. Quando, num tempo não muito distante, a regra da exclusão social nos esportes era uma praxe, Fadda ensinava o Jiu-Jitsu de Maeda para portadores de necessidades especiais, algo incomum até hoje.

A história pode ser contada sobre muitos pontos-de-vista. Segundo o filósofo Leonardo Boff, ponto-de-vista nada mais é do que uma vista sobre determinado ponto. Logo na apresentação de novos fatos surgem novas versões contestando posições consolidadas. As conclusões são frutos do bom-senso individual. Fadda é um exemplo e serviu ao propósito do BJJ com honra e louvor, despudorado de vaidade e reconhecimento. O tempo e a história se encarregarão de fazer justiça.